Nem te conheço e já te considero pacas. Sua percepção de diversas características do brasileiro é muito acurada, pegando no ponto nevrálgico de feridas abertas que temos e sabemos ter. Como você bem disse, intuimos que leva muito tempo mudar a corrupção cotidiana, a ode à vaidade, o senso de coletivismo e responsabilidade individual, entre outros tantas inflexões que gostaríamos de realizar na nossa cultura. Não há mágica, leva tempo.
Além de um entendimento primoroso, sua boa vontade desperta admiração. A consciência de qualquer problema é o primeiro passo da mudança, e, nesse sentido, sua carta teve um impacto positivo para os incontáveis leitores que a ela foram expostos. Dedicar tempo e energia para tentar ajudar uma comunidade a se perceber não é fácil, há dificultades cognitivas, barreira cultural, uma transposição linguística dos pensamentos e palavras, além, é claro, do risco de ser mal interpretado, visto como arrogante. Você foi brilhante superando todos os desafios, e sigo me declarando fã de seu texto.
A partir daqui, me permito discordar do ponto central do texto, que o problema do brasileiro é cada brasileiro, eu e você (bem vindo à grande família!). Ainda que concorde com todos os sintomas, o diagnóstico para mim indica uma doença bem diferente, e, portanto, um remédio igualmente distinto. Elencar características (aparentemente) positivas ou negativas de uma cultura é um exercício de risco. Segue meu esboço, enfático para ser didádito e construir o contra-ponto.
Os norte americanos possuem um sentimento bélico e belicioso inigualável. Invadiram e/ou comandaram operações em mais de 150 países nas últimas décadas. Trocaram governos democráticos por déspotas em todo mundo, nós latino americanos sabemos bem da interferência da CIA e do total apoio às ditaduras, que seguem até hoje, como no oriente médio, em especial na Arábia Saudita, um dos países com mais violações aos direitos humanos no mundo. Nos últimos anos, os mais jovens viram Bush fazendo o que fez em países que hoje não passam de ruínas, em guerras construídas sobre mentiras, como as armas biológicas do Sadan, antigo aliado. Clinton, o democrata, tornou mais rigoroso o bloqueio comercial imposto a Cuba - simplesmente porque o país vizinho adotou para si um modelo econômico distinto. A NSA e outras dezenas de agências nem eram reconhecidas até os anos 90, o que não as impedia de seguir atuando, mesmo com transparência zero. O orçamento militar supera a soma dos 12 países com maior investimento militar após os EUA, sendo todos aliados (ou a China virou inimiga dos EUA agora?). Isto é razoável?
As armas são livres, o mass shooting também. Em 2015, foi mais de um por dia, o Obama marca cada dia seguinte pedindo leis mais rigorosas. Isto está no noticiário; mas ligue a TV no canal de clássicos, verás índios sendo executados em preto e branco e cowboys trocando tiros entre si. Nos de ação, veremos guerras pelo mundo, no espaço (parte-se normalmente do princípio que os alienígenas vem pra briga, chegam destruindo a Casa Branca), bad boys policiais matando narcotraficantes russos ou cubanos, pessoas trancadas em jogos mortíferos. Nas séries, tem o militar/agente secreto duplo, as guerras com zumbis, em mundos imaginários medievais ou onde for: a cultura da violência é produto de exportação de grande sucesso comercial! Basta decidir se você quer saber como se faz um assassino ou como escapar sendo um assassino. No GTA você aprendeu os primeiros passos.
Outro traço central do americano é o individualismo. A ideia do self-made man ilustra como chegar no sonho americano: sozinho e trabalhando, ética protestante, certo? Você paga sua saúde, sua universidade, sua previdência, seu transporte - vamos focar em direitos básicos. Para que sistemas coletivos? O fato de americanos irem para Cuba se tratar, ou se mudarem para o Canadá pelo sistema único de saúde, não são estranhas: o Obamacare teve grande resistência, um plano para dar assistência básica de saúde pra mais de 30% de americanos que não tinham 1 hospital que os recebessem. Tampouco há sistema público de ensino superior, há um sistema quase público de endividamento estudantil, que come a renda das famílias. A previdência forte é privada e corporativista, não à toa a Prudence é "too big too fail" (ou to exist, depende da visão =) E o transporte automotivo é a prioridade, highways com 6 ou 8 faixas para cada sentido nas cidades, estradas boas e onipresentes, cada um com seu carro.
Aí entra uma questão central para o futuro da humanidade: o americano caga para o meio ambiente. Ou no ambiente. O maior emissor histórico de gases efeito estufa, os EUA não assinam nenhum tratado para reduzir as emissões. O gás de xisto, principal combustível incentivado no país nos últimos anos, teve a discussão sobre contaminação de lencóis freáticos causada pelo fracking atropelada pela ganância - em tempos de um presidente progressista como o Obama. Hoje há cidades onde a água pega fogo nas torneiras de tanto metano que desceu para os reservatórios. Isto vem de uma lógica individualista que acredita ser bom mover 1 tonelada de metal para transportar 70kg de gente, cada um no seu quadrado. E as famílias buscapes (the bervelly hillbilies) seguem esburacando as terras atrás de combustível fóssil, as always, self-made millionares!
Poderia seguir com as generalizações absurdas, e até gostaria de elencar algumas que não vão entrar no texto para não ser ainda mais longo: - A péssima capacidade de avaliar riscos, que levou uma sociedade inteira a comprar títulos imobiliários podres, e que segue sustentando "agências de risco" que dão triplo A pra quem está falindo desde que paguem dia. As guerras no Iraque a ISIS mostram que avaliar cenários e riscos realmente não é o forte (ou é?), no mercado ou no governo. - A futilidade da população, como no Brasil, não sabem nada de política ou geografia ou história, e tudo dos casamentos do Brad Pitt. Isto tem a ver com o sistema educacional fraco, como no Brasil. Há escolas que ensinam o criacionismo ao invés da teoria da evolução, e já tem mais doutorandos não americanos que americanos nos EUA. - A adoração por concentrações de mercado, fusões e aquisições. A diversidade de empresas, marcas e produtos deu lugar a conglomerados, grandes corporações. Dos anos 80 pra cá, mais de 200 empresas de mídia viraram menos de 40. A diversidade perde espaço nas comidas, bebidas, serviços bancários, fabricantes automotivos, telecom, etc, os mercados concentrados são mais lucrativos por serem menos concorridos. Novos produtos e serviços, como facebook, uber, airbnb, já nascem pensando em monopolizar seus mercados - afinal, criar monopólios é mai$ vantajo$o que criar mercados com concorrência.
Agora vamos ao que interessa: essas generalizações, sejam boas ou ruins, muito ou pouco exageradas, aderentes ou não; não pertencem ao plano do indivíduo. Veja bem: cada americano, sozinho, não conseguiria emitir as 17 toneladas de Co2 por ano. Nem juntos, os de um prédio ou bairro, não conseguiriam virar maiores parceiros comerciais da Arábia Saudita, ou abrir a legislação para todos comprarem fuzis semi-automáticos, ou ajudar na deposição de um governo que tende ao socialismo na Ásia, ou colocar o gás de xisto como promessa energética. São construções eminentemente coletivas e políticas que resultam em padrões de comportamento, ou até traços culturais, que podemos colocar como marcas de uma população. Claro que no campo simbólico todo indíviduo participa como criador e consumidor, contudo organizações coletivas, sejam governos, partidos, empresas, ongs, etc, geralmente são muito mais efetivas na inflexão deste campo simbólico.
Trocando a fita para corrupção no Brasil. Meu amigo pode quebrar o retrovisor do carro importado. Eu derrubei a planta da vizinha. Minha namorada derramou café no computador do trabalho. Em primeiro lugar, eu não acredito que os 3 seriam desonestos e não se responsabilizariam, 100% é uma taxa alta, talvez até 30% seja muito. Em segundo lugar, os 3 juntos, mais 200 milhões de brasileiros, não conseguiriam roubar 10 bilhões da Petrobrás. Para isso, cada brasileiro teria que entrar lá e sair com 50 reais. Nem teremos 100% de desonestos dispostos a tal, nem capacidade para fazer isso. Imagina os desvios de dinheiro público de merenda, metro, bolsa família, hospital e suas OSs, rodovia, olimpíada, copa, concessões, privatizações..... ufa! 10 Bilhões não deu pro início. Seríamos 200 milhões com um tanto de dinheiro a mais no bolso. Assim como os americanos não conseguem fazer fogueiras o suficiente pra esquentar o planeta, mas suas corporações conseguem, os brasileiros não conseguem ser corruptos o suficiente para matar gente na fila do hospital e criar 1 milhão de casos de dengue por ano, mas nossos políticos conseguem.
Nossos conhecidos americanos não nos convencem a ter como referência carros de luxo, jóias, um fone Beats by dr. dre e o visual da barbie, os artistas, estúdios e a mídia conseguem. Nossos conhecidos brasileiros não derrubam algumas árvores por dia, alguns poucos desmatadores o fazem. Os americanos não saem pelas ruas com fuzis nas costas, e entram em escolas e cinemas fuzilando gente, são uns poucos loucos ao ano dentro de uma cultura armamentista que outros poucos lobistas sustentam no congresso. Nem os americanos aqui do facebook pegam essas armas, um avião, e vão invadir países nas férias; uns poucos políticos deicidram isso, às vezes contra a opinião da maioria da população (e com apoio da mídia). Os brasileiros não escolheram pagar R$ 1.000 ao professor e R$ 31.000 ao juiz, ao deputado e ao assessor do deputado. O brasileiro não se deu 1 mês de férias e deu 2 meses para o judiciário, o legislativo e o executivo. O brasileiro não escolheu trabalhar 65 anos e deu aposentadoria acumulativa para políticos com 2 ou 3 mandatos. Os americanos que conheço pilotam drones com câmeras goPro, não assassinam paquistaneses preventivamente com algumas tantas "casualidades".
Responsabilizar VOCÊ pelo que seu político e seu governo fizeram nas últimas décadas, e por vezes continuam fazendo, é ótimo para o despertar da consciência individual, e péssimo para o despertar da consciência coletiva. Não, a soma dos atos de cada um não vai resultar no todo, infelizmente. O fato de eu e uns tantos conhecidos termos composteiras em casa não me impede de perceber que o Brasil não aplicou sua legislação de tratamento de resíduos - nem até a Copa, nem até a Olimpíada. Seguimos com os famigerados lixões a céu aberto, e isso não é obra que a compostagem e a consciência individual podem mudar, isso é política pública, coletiva, politizada e partidária (argh!) na essência, quer gostemos quer não. Economizar água no seu banho não faz com que centenas de rios sejam despolúídos, pelo contrário, talvez até ajude a mantê-los assim.
Eu e você podemos dar aulas em escolas públicas que a nota do ensino do Brasil não vai crescer com os professores ganhando mal e as escolas caindo aos pedaços. Nossos médicos podem atender de graça 1 dia na semana pacientes carentes e isto não vai mudar a inexistência de centros básicos e especializados de medicina na maioria dos municípios brasileiros. Podemos ter arma em casa, ou até andar armados se a lei mudar, e isto não vai alterar a violência policial dentro de comunidades carentes. Porque tudo isso são políticas públicas! Mobilizam quantidades enormes de recursos, e são direcionados e distribuídos por políticos e seus partidos (argh!). É o Estado agindo, e assim como aí ninguém segura o Uncle Sam, aqui ninguém segura o braço do Estado, independente se é uma prefeitura derrubando uma vila perto do autódromo, se é algum governo estadual com sua polícia batendo em estudantes e professores, ou se é o governo federal construindo hidrelétrica em área de preservação.
A ilusão de que nós, indivíduos, temos poder de mudar o mundo com nossas ações particulares e superar o mal que eles, políticos e corporações, causam no planeta e na sociedade, é uma das mais doces mentiras. Nos mantém concentrados em discutir como cada um pode ser melhor e dormir tranquilo individualmente enquanto mantemos a ojeriza pela política. "Não vamos nos misturar nesse meio de ladrões, certo? Melhor cada um fazer o seu..."
Concluindo, não discordo em nenhum momento que a cultura brasileira tem alguns traços por você marcados que poderiam ser melhores. Discordo, porém, que a melhora do país não vem de uma mudança cultural, muito menos se dá no plano individual. Ela ser dará de acordo com nossa capacidade de ocupar os espaços políticos, mudar a legislação, acabar com privilégios, acrescentar a concorrência onde há monopólio, diversidade onde há homogeneidade, em ações políticas, coletivas, na lógica democrática e partidária (argh!), articuladas pelo braço do Estado, por dentro dele, que ineroxavelmente há de impactar na sociedade e sua cultura.
Em outras palavras, você pode até ser o problema - ou a solução. Mas seu impacto vai ser baixo enquanto as ações não se tornarem políticas, coletivas, não ganharem escala. Podemos ganhar escala via youtube, mudar um hábito comunitário após uns tantos anos; porém tudo que o Estado faz tem grande escala, da corrupção à educação, e aí que temos que atuar para conseguir as transformações efetivas. Não precisa deixar de ser vegano ou largar a composteira, isto também está mudando o mundo e a cultura. É preciso mais, muito mais, e rápido: entrar na política e tirar os políticos profissionais e suas famílias, os lobistas, os doleiros, o patrimonialismo. Fechar as torneiras da corrupção e dos privilégios, e abrir as páginas da transparência e da responsabilização. Isto passa pelo voto, pelo protesto, pela audiência pública, pelo texto na internet. E, na minha opinião, pela consciência de que eu e você somos absolutamente irrelevantes enquanto nos focarmos em ações individuais e não mexermos no vespeiro que comanda a vida e os recursos coletivos: a estrutura política do Estado.